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terça-feira, 23 de março de 2010

Ajuizai!

By Diana Roque in "As minhas reflexões..."

O mestre é um indivíduo que adquiriu um conhecimento especializado sobre uma determinada área do conhecimento humano e que tem a capacidade de transmitir esse conhecimento a outros indivíduos, denominados pupilos ou discípulos.

O termo mestre impõe a existência de uma relação dual que se estabelece entre o indivíduo que se considera mestre e o pupilo ou discípulo que considera o primeiro como seu mestre. Esta consideração associada à definição inicial de mestre, exige que o mestre actue no sentido de educar o aprendizado do pupilo em determinada área, de forma directa e pessoal e simultaneamente, que o pupilo receba e incorpore essa aprendizagem, consciente desse binómio relacional que deve subsistir num determinado período de tempo, o necessário à conclusão do processo de aprendizagem. A transmissão e a recepção do aprendizado processa-se através de determinado canal de comunicação e ocorre em várias fases.

Há indivíduos que são verdadeiramente mestres e ensinam, praticam e conhecem, de forma autêntica e genuína, a Arte que estudaram e aprenderam ao longos de muitos anos de dedicação e empenho pessoal, desenvolvendo e aprimorando continuamente a sua aptidão e capacidade técnica e teórica, e ajudando os que os rodeiam a crescer de igual forma.

Definir o mestre obriga, também, a definir o termo pupilo que se distingue de discípulo. Aquele que não absorve directamente o conhecimento de um mestre não se pode intitular seu pupilo e muito menos seu discípulo, uma vez que este último termo, define o que segue e respeita, aquele que aprende do que ensina, e procura colocar em prática os ensinamentos que recebe ou recebeu do mestre. O pupilo é um mero estudante que pode vir a tornar-se discípulo se praticar o que aprendeu do mestre. Por isso muitos pupilos, nunca se poderão considerar discípulos, atendendo à deturpação que inserem nos ensinamentos recebidos, desvirtuando a essência de dada aprendizagem.

Mestre e discípulo ou Professor e pupilo? Para identificar este binómio, ambos se devem reconhecer mutuamente nesse papel, pois trata-se de uma relação que se consubstancia no estabelecimento duma comunicação bilateral e não unilateral, que gera um sentimento de comunhão recíproco.

Contudo, num nível de evolução mais elevado o pupilo ou discípulo, naturalmente, torna-se mestre de si mesmo, pois a finalidade do aprendizado de dada Arte não visa somente a evolução teórica e prática do conhecimento que lhe é subjacente, tendo por objecto último o desenvolvimento pessoal de cada indivíduo no sentido do auto-conhecimento e da consciencialização do Todo que o transcende e que, simultaneamente, é uno consigo. Nesta fase a relação mestre / discípulo é unívoca e biunívoca. Unívoca porque cada um é mestre de si mesmo e biunívoca pois cada mestre tem a possibilidade de ter múltiplos pupilos ou discípulos e estes múltiplos mestres.

Assim, quando perante um caminho que visa aprender uma Arte específica, ajuizai atentamente quem é o vosso Mestre! Ajuizai, também, se sois discípulos ou pupilos!

Coimbra, 23 de Março de 2010

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