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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Tai Chi Chuan - Origem e Actualidade

By Diana Roque


A origem do Tai Chi Chuan é um tópico controverso que incorpora uma multiplicidade de factores históricos que abrangem questões sociais, políticas e filosóficas da Cultura Chinesa. Os diversos factos históricos formam uma rede complexa de informação, cuja análise linear se torna confusa. Por esse motivo, e com o intuito de clarificar tanto quanto possível de forma nítida e estruturada as diversas teorias inerentes à origem do Tai Chi Chuan, julgo conveniente expor as mesmas segundo um modelo sistematizado que assenta em três teorias principais, as quais caracterizam o aparecimento do Tai Chi Chuan de forma distinta no que respeita as variáveis tempo e espaço e, obviamente, no que concerne aos personagens históricos envolvidos, associados à fundação desta arte.

Actualmente, uma das teorias mais consistentes defende que a origem do Tai Chi ocorreu nas Montanhas Wudang na Província de Wuhan (China), contudo alguns autores denotam que esta tese tem um forte cariz lendário, uma vez que muitos referem que o personagem que se lhe associa como fundador do Tai Chi, Chan Sen Feng, não teria existido na realidade. Esta ilacção resulta dos inúmeros relatos que se registaram ao longo dos tempos e que descrevem alguns episódios que terão tido por protagonista Chan Sen Feng, os quais variam entre o séc. XIII e o séc. XVII e por esse motivo, esta figura histórica para alguns e mítica para outros, é caracterizada como um imortal que detinha poderes especiais que teria obtido no cultivo da alquimia interna. No entanto, o Museu de Wushu da cidade de Wudang apresenta evidências de que este monge taoista terá de facto existido, e que foi sem dúvida o propulsor do desenvolvimento das artes marciais internas, com especial relevância para o Tai Chi Chuan. Este é um facto que tive oportunidade de constatar pessoalmente aquando de visita que efectuei ao citado museu no passado mês de Julho. O Mestre Chan San Feng enfatizava como meio primordial para alcançar a evolução interior, a obtenção da harmonia entres as forças Yin e Yang, seguindo as leis da Natureza, tal como sustentado pela Filosofia Taoísta, tendo desenvolvido a prática de meditação em consonância com a exercitação de movimentos impulsionados por uma energia interna que aprimorou através da prática de Tai Chi.

Uma segunda teoria apresenta o Tai Chi Chuan como sendo uma arte marcial desenvolvida em Chenjiagou, aldeia da Província de Hebei (China). Esta teoria tem sido defendida pela Família Chen que representa um dos Estilos Tradicionais de Tai Chi Chuan. A versão da Família Chen afirma que o Tai Chi Chuan terá sido desenvolvido em meados do século XVII pelo seu ancestral Chen Wang Ting, um general da dinastia Ming que combateu em Shaolin. Este facto poderia justificar as similaridades do Tai Chi da Escola Chen com determinados traços das práticas marciais desenvolvidas em Shaolin que se caracterizam como Artes Externas e consequentemente são sustentadas pela Filosofia Budista. Esta constatação é extremamente controversa, uma vez que é sabido que o Tai Chi Chuan tem por alicerce a Filosofia Taoísta.

Por último, existe uma terceira teoria que evidencia a importância de Yang Luchan (1799-1872) na história do Tai Chi Chuan. Yang Luchan nasceu na aldeia de Yong Nian, Província de Henan (China) (1799-1872) e foi um Mestre de Artes Marciais de elevado valor e perícia técnica, tendo sido conhecido como "O Invencível". Segundo relatos orais que recolhi junto do Grão Mestre Fu Sheng Yuan e do seu filho, Mestre Fu Qing Quan, os quais representam uma das linhagens da Escola Tradicional de Yang Tai Chi, respectivamente a 4ª e a 5ª geração, é indubitável que Yang Luchan era exímio na prática de Artes Marciais e que na sequência de diversas visitas intercaladas a Chienjiagou, num período de dezoito anos, pode aprender com Chen Chan Hsing a arte de Mien Chuan, o qual por sua vez a aprendera com Jiang Fa. Vários autores afirmam que Jiang Fa teria aprendido a arte de Mien Chuan com Wang Tsung Yueh, personagem que se relaciona com as Artes Internas desenvolvidas em Wudang. Contudo e de modo a ser fiel ao discurso oral transmitido de geração em geração no seio da Família Yang, segundo as palavras do Grão Mestre Fu Sheng Yuan, não existem certezas relativamente ao facto de Jiang Fa ter aprendido directamente a arte de Mien Chuan com Wang Tsung Yueh, pois provavelmente este não foi seu contemporâneio e pensa-se que de facto haverá um elo de ligação entre ambos, mas as personagens envolvidas não são conhecidas, pois não existem registos escritos, pelo que tudo o que possa ser dito ou escrito, apenas se podem considerar possíveis hipóteses. Mas, é um facto assente que a arte de Mien Chuan não era praticada pela Família Chen que na época apenas praticava o Pao Chui, uma Arte Marcial de Shaolin. O Mien Chuan já apresentava os 13 movimentos, respectivamente as cinco direcções e as oito energias.
A destreza e habilidade marcial de Yang Luchan tornaram-no famoso, de tal forma que foi convidado pelo Imperador a visitar a Corte Imperial em Pequim, tendo vindo a ser professor dos príncipes e da Guarda Imperial. Na Corte Imperial, aquando de uma das suas demonstrações da arte de Mien Chuan, o desempenho marcial de Yang Luchan foi comparado por Wong Tong He à harmonia do Tai Chi . Wong Tong He era um estudioso que detinha um conhecimento profundo da Filosofia Taoísta e ao constatar a capacidade de Yang Luchan para derrotar vários opositores de elevada reputação, escreveu:

“As mãos que possuem Taiji fazem tremer o mundo inteiro,
O peito que contém uma habilidade suprema, derrota uma multidão de heróis.”


Assim, Wong Tong He teve um papel primordial na identificação e associação do Mien Chuan com o Taiji (Tai Chi), uma vez que até ao momento em que este homem identificou por escrito a Arte de Yang Luchan com o Tai Chi, a sua arte era apenas conhecida como Mien Chuan e só posteriormente, a este facto veio a ser conhecida como Taiqiquan (Tai Chi Chuan), bem como todos os estilos que resultaram dos seus ensinamentos. Nessa altura o Tai Chi Chuan era apenas um e tal como o Fu Sheng Yuan e o seu filho, Fu Qing Quan, sempre referem, o Autêntico Tai Chi Chuan ainda é um só.

O Grão Mestre Fu Sheng Yuan refere muitas vezes a seguinte analogia ao sucesso e expansão da Arte de Yang Luchan:

“Yong Nian is the sea and Chienjiagou is the boat. As the water is getting higher and higher and the sea bigger and more powerful, the boat goes up and up, thus it becomes more and more visible”.

(Yong Nian é o mar e Chienjiagou o barco. À medida que a água sobe e o mar cresce e se torna mais poderoso, o barco sobe mais e mais, e por isso torna-se cada vez mais visível).

Com esta frase o meu Sifu pretende dizer que de facto sem Yang Luchan, hoje o Tai Chi não seria conhecido no mundo tal como é, pois este foi sem dúvida o responsável pela divulgação desta arte. Primeiro na Corte Imperial Chinesa e mais tarde através dos seus descendentes e seguidores por toda a China e pelo mundo, e relembro as palavras de Fu Sheng Yuan "...se a água do mar não subisse, o barco não seria visível.".

Existe, contudo, uma grande polémica quanto à veracidade das diversas teorias vigentes que se contrariam entre si, e este facto resulta da falta de documentos escritos fidedignos que possam comprovar a autenticidade histórica das mesmas. Assim, na ausência de provas históricas irrefutáveis e de modo a manter um espírito de prudência e sensatez, julgo que se devem expor as diversas versões, dando a conhecer as diversas perspectivas históricas e simultaneamente, lançando para a arena um debate saudável de questões inerentes à essência e definição do conceito original de Tai Chi Chuan à luz da evolução que sofreu no decorrer do século XX na China e no Ocidente e do desenvolvimento que se continuou a evidenciar na primeira década do século XXI que conduziu ao aparecimento de novas escolas e estilos.

A teoria da Família Chen foi sustentada e apoiada por muitos, o que resultou na colocação e exposição pública de uma placa de bronze em Chienjiagou que continha a seguinte gravação “Aqui nasceu o Tai Chi”. Todavia, recentemente esta placa foi retirada por ordem do Governo Chinês, o que demonstra a consciencialização para a necessidade de encontrar respostas válidas para um tema tão controverso. Por outro lado, em Yong Nian permanece exposta uma placa que refere “Yong Nian, O Lar do Tai Chi”, o que pode ser um facto indicador relevante.

Julgo que actualmente o que importa enfatizar é que o conceito de Tai Chi Chuan ultrapassa a essência original que o definia como uma Arte Marcial. Hoje, o Tai Chi é praticado, também, como um Desporto de Competição, bem como um método terapêutico de prevenção e promoção da Saúde e ainda como actividade lúdica, associando-se aos conceitos de Fitness e Wellness. O Tai Chi surge em pleno século XXI como uma Arte Marcial e um Desporto, e também, cada vez mais como uma Arte da Saúde. No entanto, não posso deixar de observar que pessoalmente considero que a verdadeira prática de Tai Chi exige a prática desta arte num âmbito marcial, o que exige um trabalho árduo no aperfeiçoamento contínuo das posturas. A prática marcial de Tai Chi Chuan apenas denota resultados após um trabalho de vários anos que não tem fim e, incorpora o leque das restantes perspectivas, ou seja, lúdica, desportiva e de promoção da saúde. Para além disso, o Tai Chi como Arte Marcial exige a supervisão de um Mestre experiente que comprovadamente tenha recebido esse conhecimento de uma linhagem tradicional fidedigna. Este é um conhecimento empírico transmitido de geração em geração que certamente pode ser aperfeiçoado e facilitado com novas técnicas de aprendizagem complementares, mas será sempre imprescindível o contacto directo com um Mestre fidedigno que para além de demonstrar que domina a prática, tem a capacidade de corrigir e direccionar positivamente a evolução dos seus estudantes.

A evolução nesta arte implica empenho pessoal, perseverança, sinceridade, humildade e gratidão pelos ensinamentos recebidos. Por isso, concluo este artigo expressando o meu reconhecimento e gratidão aos meus três Mestres de Tai Chi Chuan da Escola Tradicional de Yang Tai Chi, os quais têm desempenhado de forma distinta, mas insubstituível, um papel relevante na minha aprendizagem, nomeadamente, o Mestre Nelson Barroso, o Mestre Fu Qing Quan e o Grão Mestre Fu Sheng Yuan.


Coimbra, 19 de Agosto de 2010

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